Mestres
Mestre Hironori Otsuka
Nasceu a 1 de Junho de 1892 em Shimodate, perto de Tóquio. Primeiro filho do médico Tokujiro Otsuka e sobrinho, pelo lado da mãe, do Samurai Chojiro Ebashi, é iniciado por estes, desde muito novo, no Ju-jutsu e no Sumo. Deve ter demonstrado grande interesse, pois aos 12 anos entra numa grande escola, a Yoshin Shindo Ryu, dirigida pelo Mestre Nakayama Shinsaburo Tatsubaro Yukioshi, 3º Iemoto (sucessor) deste ramo (Ha) da Yoshin Shindo Ryu. Aos 18 anos entra na Universidade de Waseda, para efectuar estudos comerciais, sem abandonar o Bu-jutsu, que estuda também noutras Ryu, nomeadamente naquelas que ensinam Kenpo e a medicina Tradicional.
Em 1917 entra para o banco Kawazaki, mas continua a estudar diversos estilos de Bu-jutsu (Yagyu Ryu, Toda Ryu), estudando também Shuriken-jutsu; conhece os Mestres Morihei Ueshiba (fundador do Aikido) e Kenji Tomiki (criador do Aikido Tomiki), dos quais fica amigo, decidindo em breve consagrar a sua vida às artes marciais; ao que a sua família se tentará opôr. Depois, o seu pai morre... mantém o emprego no banco, mas sem abandonar o Dojo.
A 1 de Junho de 1921 recebe das mãos do seu Sensei na Yoshin Shindo Ryu o Menkyo Kaiden (certificado de mestria geral), vendo-se assim designado como sucessor oficial da Ryu (escola), com o título de Kaiden Shian. Ei-lo 4º Iemoto da Ryu, facto excepcional dada a sua idade de 29 anos. Dedica-se então a ensinar Bu-jutsu através de uma síntese das escolas Yoshin, Shin No Shindo, Tenshin e Shinto Yoshin, na sua casa em Kawasaki/Shijuku, sem deixar de frequentar, sempre que possível, outras Ryu, à maneira dos seus grandes antepassados (entre as quais a Tenshin Shinyo Ryu).
Em Julho de 1922 conhece o Mestre Gichin Funakoshi (fundador do Karate Shotokan), quando da segunda demonstração deste em Tóquio. Subjugado, não pára de se confrontar com as suas técnicas. Funakoshi aceita-o como aluno (um facto raro, um Mestre não podia receber ensinamentos de outro Mestre, mas dada a diferença de idades!) e, na pequena cabana posta à disposição pelo Mestre Jigaro Kano (fundador do Judo), Hironori virá todas as noites receber a sua lição... A sua progressão é muito rápida, ficando primeiro assistente de Funakoshi em 1925 e, por força das coisas, deixa o banco em 1927, para abrir um centro de tratamento para os ferimentos provocados por artes marciais, continuando a assegurar as responsabilidades de instrutor chefe na Yoshin Shinto, onde substitui progressivamente os antigo Ate Waza pelo Kenpo Karate-Jutsu. Otsuka chega a substituir Funakoshi nos seus cursos e demonstrações e, mais forte nos seus conhecimentos de Bu-jutsu e de medecina tradicional, começa a modificar sensivelmente as técnicas ensinadas por Funakoshi, até que um diferendo opõe os dois Sensei...
O Mestre Otsuka quer desenvolver os Yaku Soku Geiko, herdados da Yoshin (sequências pré-combinadas de ataques e defesas, praticados a dois), e associá-los aos Kumite do Karate, para fazer os Yaku Sku Geiko Kumite ou Kata Kumite (uma espécie de combate programado, explicita as relações murro/ pontapé - prisão - projecção - solo, e que deve preparar o estudante de Artes Marciais para o Shiai... o combate). Aliás, esses encadeamentos demonstrados em público (uma vez com o próprio Funakoshi), emanavam uma sensação de flexibilidade e de fluidez que contrastava fortemente com os Kihon Kumite do Karate-jutsu de Funakoshi, e arrebatavm toda a aprovação.
O Mestre Otsuka em breve quer ir mais longe, tal como integrar no Karate, que considera demasiado rígido e incompleto, certas técnicas de combate, como projecções, Chaves e imobilizações no solo, das quais é um especialista. Quer, finalmente, adicionar ao Karate todos os recursos do Bu-jutsu, mas Funakoshi não quer ouvir falar de tal, para ele o ensino deve limitar-se aos Kihon e Kata de base (15 ao todo nessa época, dos quais os 5 Heian), sem explicações nem combate. As relações tornam-se tensas e quando Otsuka preconiza encontros desportivos, combate programado contra vários Uke e a utilização de armas do ji-Bugei (Bo, Tanto, Ken), e Funakoshi tudo recusa, Otsuka retoma a sua liberdade... para continuar a sua busca com o Mestre Choki Motobu, esse combatente fora de série que agora toda a gente conhecia, com quem apura os seus Kata Kumite e reestuda a Naihanshi (mas é "um macaco mal educado" dirá Funakoshi de Motobu, ele próprio tratado por Motobu de bailarino, o qual não se inibia de o ridicularizar em Kumite).
Depois, trabalha com Sensei Kenwa Mabuni (fundador do Shito Ryu), com quem estuda Kata antigos e pratica os Ryu Kyu Kobudo, e com sensei Konishi (fundador da Shindo Shizen Ryu). Enfim, em 1933, durante um festival de artes marciais em Quioto, à pergunta (insidiosa)... qual é a origem da sua arte marcial? Ele vê-se constragido a responder Shinshu Wado Ryu Kempo Karate Ju-jutsu... "Shinshu" para lembrar a origem (Shu) desta nova escola é o espírito (Shin) da Yoshin Shindo Ryu (Ryu que datava de 1650 e da qual era herdeiro)... "Kempo" para precisar que o Ate Waza utilizado provinha da China, via Okinawa... "Wa" para precisar que o objectivo desta nova escola era a paz e harmonia (Wa significa a paz especificamente japonesa esperada para a era Sho-Wa, inaugurada pelo novo imperador Hiro Ito), também símbolo de Mabuni, um dos seus mestres (um símbolo que evoca duas pessoas que convergem na manutenção da paz num círculo, que será retomado para simbolizar o Shito Ryu Karate Do).
Após a explicação do Sensei Gisaburo Kubo, o sucessor da Yagyu Shinkage Ryu e mestre de armas do clã Tosa, de que Shinshu e Wa significam a mesma coisa para o Japão tradicional... o Mestre Otsuka suprime "Shinshu". Depois, é "aconselhado" a suprimir a palavra Kempo (naqueles tempos conturbados era melhor para uma Ryu um nome puramente japonês, sem qualquer referência a uma origem técnica chinesa). Aliás, o logotipo da escola confirmará esta atitude: o punho cerrado (sinónimo de força e emblema do Karate) cercado pelas asas abertas de uma pomba (símbolo de paz, lembrando o conceito japonês Wa= harmonia), logotipo acerca do qual o Mestre Tomiki, que tinha influênciado a sua escolha, escreve pouco depois "Wa" significa paz mas também "harmonia" e "acordo", é o primeiro princípio das artes marciais japonesas... não ir contra mas com a força do adversário, mantendo a sua própria posição. Wado Ryu significa pois "Escola tradicional (Ryu) onde se ensina a via (Dô) da paz (Wa)... E na época seguinte, em 1934, no grande Taikai do Butokukai, através do Kumite, Gyakunage, Idori, Tachiai, Tanto Dori e Shinken Shiraha Dori demonstrados, apresenta, sob o nome Wado Ryu, duas escolas:
- A Wado Ryu Karate-jutsu, e sua Ryu de Karate (primeira escola de Karate reconhida pelo Butokukai e Ryu original do nosso Karate-jutsu Wadokan), um Karate declarado e reconhecido pelo Butokukai como sendo um estilo de uma escola de artes marciais cujo objectivo primeiro é pôr o adversário fora de combate, com a ajuda de todas as técnicas de combate eficazes conhecidas, geralmente graças à utilização dos pontos vitais, "um" Karate bem diferente do apresentado por Funakoshi, "um" Karate que ele ensinará em breve nas universidades de Eto, Kihara, Hirakawa, Chuo, Kawakami e Shimizu.
- A Wado Ryu Ju-jutsu Kempo, a sua escola de Ju-jutsu (Ryu original do nosso Nihon Ju-jutsu Seibukan) onde o antigo Ate Waza do Bu-jutsu é substituído pelo Karate-jutsu, um Ju-jutsu que ele ensinará confidencialmente no seu próprio Dojo.
Embora os dois primeiros renovadores do Budo, os Mestres Kano e Ueshiba, tenham estudado os Atemi do Karate, teoricamente apresentados pelos Mestres de Okinawa-Te, desde 1921, em Tóquio, nenhum deles reteve verdadeiramente na sua própria Ryu. O Mestre Kano, no Kodokan, porque considerava que os Atemi eram perigosos mesmo controlados, guardando no entanto, na sua progressão, o Kokumin Taiku Dosa, um Kata de educativos de Ate Waza para Auto-Defesa. O Mestre Ueshiba, para o Aikido, porque queria dar uma nova orientação ao Aiki-jutsu, a não violência, por essência em contradição formal com os Atemi, dos quais guarda apenas o esboço. Gichin Funakoshi iria fazer um caminho idêntico mas no sentido contrário, isto é, o seu Karate seria um combate desportivo (um jogo?) disputado sem outros meios que as técnicas de percussão oferecidas pelas únicas armas naturais do corpo humano. Enfim, passava-se o mesmo com os adeptos do Kendo, onde as novas regras iriam excluir todos os antigos meios de vencer do Kenjutsu (entre os quais os Atemi), para guardar apenas o toque com o Shinai.
Todos os Shin Budo se juntavam assim às diferentes correntes educativas, como na Europa com barão de Coubertain, que queriam oferecer aos seus adeptos desportos de combate tipificados, facilitando assim a sua aprendizagem e avaliação: o Boxe sem mais nada para além dos murros, a luta sem qualquer murro, a esgrima sem murros, nem prisões, nem projecções. Todos se queriam afastar da realidade da rixa ou do combate real, onde todas estas possibilidades se podiam encontrar misturadas. Um dos últimos grandes Bu-jutsuka do momento, o Mestre Hironori Otsuka, iria contudo seguir em sentido contrário a estes renovadores, pois iria continuar a ensinar as artes marciais na sua totalidade e escolher entre todas as disciplinas de combate conhecidas, as melhores técnicas, para as associar.
Deverá ter sido a eficácia que guiou inicialmente o Mestre Otsuka na sua pesquisa. Não que o antigo Ate Waza do Bu-jutsu fosse desinteressante ou inoperante, mas sim porque não tinha sido desenvolvido tecnicamente como tinha acontecido a partir do séc. XVI na China e nas ilhas RyuKyu (Okinawa), mantendo-se apenas como um meio complementar para criar uma abertura em combate próximo ou para finalizar se, por acaso, o combatente se encontrava sem armas. Ao contrário, no Kempo Karate-jutsu o Atemi é, frequentemente, um fim em si, se bem que não exclua técnicas de projecção, de estrangulamento ou de Kyushu. Talvez também porque era necessário substituir o Ate Waza que nas Ryu de Budo se encontrava reduzido à sua expressão mais simples, mais preocupados em encontrar uma falha num desembainhar em "Iai", ou simplesmente porque aquele tinha sido deixado aos campónios, indignos por definição de usar armas e incapazes de se treinarem o suficiente para o fazer progredir. Talvez, finalmente, porque se desenvolvia alguma discussão opondo os detentores do antigo Bu-jutsu aos responsáveis do Budo e dos Shin Budo, quer no plano ético puro quer a propósito do seu valor próprio no plano estrito da eficácia, uma contenda que iria ser varrida a partir do primeiro terço do séc.XX devido às necessiadades militaristas em reconverter estes Shin Budo (mesmo os mais suaves) em técnicas de preparação psicológica para os duros combates que se adivinham...
Com o fim da guerra (1945), quando os aliados dissolvem o Dai Nippon Butokukai (Federação de Artes Marciais Japonesas) e proíbem a prática das artes marciais, o Mestre Otsuka é obrigado a fechar o seu Dojo Yoshin e Wado, continuando, no entanto, a ensinar o Tambo (única arma permitida, a par do Jo das forças policiais). É em 1948 que o Karate pode escapar da proibição porque é considerado por MacArthur uma dança popular de origem chinesa.
E em 1951, quando o tratado de paz é assinado entre Japão e os EUA, a prática do Budo é de novo autorizada e, quando é feita uma grande demonstração de Judo, Kendo, Karate-Do, Aikido, Kobudo, e Kyudo, para os relançar, o Mestre Otsuka opõe-se à "divisão" da Yoshin em várias artes.
Em 1954, o Mestre Otsuka sai da Associação de Karate do Japão e funda a Federação Internacional de Wadokai. Em 1965, com Tatsuo Suzuki, Toru Arakawa, Teruo Kono, Masafumi Shiomitsu, Yutaka Toyama, Gunji Yamashita e Hajime Takashima, faz uma tourné pela Europa, repetindo-a em 1970, em 1972, e em 1976.
O Mestre Otsuka morre em 29 de Janeiro de 1982, Saiko Shian (Grande Mestre), 10º Dan, coberto de todas as honras (recebeu a 29 Abril de 1966, do imperador, a Kung Goto Suoko Ju-jutsu Shu, a maior das condecorações do Budo, e em 1972 o título de Meijin, o mais elevado grau em Budo); confiou ao seu segundo filho Jiro Otsuka, dois meses antes da sua morte, o rumo do Wado Ryu Karate Renmei.
Mestre Minoru Mochizuki
Nasceu em 1907 em Shizuoka. O avô, ultimo descendente de uma linha de Samurais de elevado grau durante a era Meiji, empurrado para miséria, acabou por se estabelecer num albergue em Tokkaido (a antiga via que ligava Tóquio a Quioto) e ensinar a arte do sabre, mas também, às crianças das redondezas, a leitura, o cálculo, e todas as bases do conhecimento. O pai, excelente no sabre, bom lutador de Sumo, mas simples camponês, sofreu revézes da fortuna sendo obrigado a partir para Tóquio onde arranjou um pequeno emprego nos transportes fluviais e criou 12 crianças, das quais 5 filhos, que farão todos os seus estudos. Acontece que em frente da casa de habitação familiar existia um Dojo... Minoru Mochizuki começará aí com Judo aos 5 anos, com o Mestre Tabeke, um antigo aluno do Mestre Jigaro Kano. A familia muda de casa dois anos depois para se reinstalar noutro lado... de novo frente a um Dojo, o Kendokan do Mestre Sanbo Toku (um campeão de Judo que terá batido 165 adversários em linha quando era um adolescente) onde, como indica a razão social do Dojo (Ken = sabre), era ensinado o Kendo. O próprio Mestre Sanbo Toku era uma das melhores lâminas do Japão e não aceitava alunos de sabre abaixo de 3º Dan, perante o entusiasmo do pequeno Minoru com as artes marciais, aceitou tomá-lo como aluno em Judo e Ken (sabre).
Num estágio, Minoru é apresentado ao grande Mestre Kyuzo Mifune (1883-1965, que entrou no Kodokan em 1903, aluno directo do Mestre Kano, o seu Kuki Nage "especial" ainda fazia estragos, nomeado 10º Dan em 1945, escreverá as suas memórias "Judo Kaikoroku" em 1953). Minoru depressa será cativado pelo Mestre Mifune, excepcional pedagogo "ele explica os movimentos" (o que era impensável no Japão: ou bem que se compreende logo o movimento demonstrado... geralmente uma única vez e pode-se continuar... ou bem que não se compreende e é melhor fazer outra coisa). O Mestre Mifune é também um narrador de histórias sem par (a história da telha dentro do Kimono) e as crianças sucumbem todas aos seus talentos. Com o acordo do Mestre Toku, Minoru passará rapidamente a ir todos os dias para o afastado Dojo de Mifune (correndo para não chegar tarde a casa). Este, por seu lado, para lhe evitar estas perdas de tempo, depressa lhe oferece a possibilidade de o tomar como Uchi Deshi (aluno interno). Mas Minoru fica doente e tem de ficar 6 meses em casa, em Shizuoka, para se tratar (Mifune, sem nada dizer, pagará as consultas) e, de regresso ao Dojo, tem a surpresa de ser convidado para o Kodokan pelo próprio Mestre Jigoro Kano... gratuitamente.
Estamos em 1922, Minoru tem 15 anos, e rapidamente os resultados se encadeiam: 1º Dan em 1927 (e 2º Dan de Kendo), depois assistente do Mestre Mifune. Além disso, continua os seus estudos e obterá o seu diploma de Osteopata, entrando também na política, para se juntar àqueles que sonham com uma Ásia Unida e com um Grande Japão com o Dai Nippon Kyokai. O sonho não era o dos militares, dir-nos-á maisl tarde, mas uma utopia idealista...
Em 1928 passa o seu 3º Dan de Judo e arranja tempo para seguir o curso da Gyokushin Ryu, uma antiga escola de Bujutsu especialista em Sutemi, da qual recebe o Menkyo Kaiden.
Sutemi, de que dirá mais tarde "Sacrificar-se para ficar com a vida do seu inimigo é fazer Ai Uchi, unir-se com ele, para a glória e para a vida". Após a criação do Kobudo Kenkukai pelo Mestre Kano (organismo criado para associar ao Judo as antigas técnicas de Bujutsu), o Kodokan selecciona uma trintena de Judokas, entre eles Minoru, e confia-os 2 vezes por mês a 4 professores da Katori Shinto Ryu. Mas, embora os cursos fossem muito caros e pagos pelo Mestre Kano, todos abandonam antes do 5º curso, excepto Minoru. O Mestre Kano seleccionará então ele próprio 9 outros, mais Minoru, e desta vez não haverá abandonos. Minoru claro, e Yoshio Sugino, vêm ambos mesmo assim queixar-se (é Minoru que falará). O Mestre "Fulano" mostra-nos esta técnica desta maneira... O Mestre "Sicrano" mostra-a de forma diferente... quem é que devemos ouvir?
O Mestre Kano responderá invariavelmente neste tipo de situação, que se repetirá na Tenshin Shōden Katori Shintō-ryū e noutros lados, "rejeita e encontra tu próprio" (faremos deste conselho uma prioridade nos nossos ensinamentosm, eis a explicação).
Com efeito, dos 4 professores da Tenshin Shōden Katori Shintō-ryū: Tamai Sato (70 anos), Kubokai Sozaemon (50 anos), Ito Takenichi (45 anos) e Shina Ichiza (38 anos), cada um ensinava de facto o Kenjutsu de forma diferente, o que não deixava de lançar a inquietação nos espíritos dos protegidos do Mestre Kano, mais habituados ao rígido Gokyo do Judo, e isto porque a Katori Shintō-ryū vivia nessa época um período dificil da sua existência. O seu último Soke, Morisada Lizasa, morto em 1897, tinha deixado o Ryu sem herdeiro masculino, pelo que a escola teve de funcionar sob a responsabilidade de um chefe instrutor, o Shihan Yamaguchi, e de 9 professores que partilharam o ensino até 1918, ano do próprio Yamaguchi. Depois, um colégio de Shian, formado pelos Sensei Kamagata, Tamai, Shina, Ito, Kuboki, Isobe, Hayashi e Motoniga assegurou a rendição, donde a reflexão dos nossos Judokas. Finalmente, Minoru receberá os Menkyo Kaiden da Katori Shintō-ryū e ser-lhe-à oferecida em casamento uma descendente de Lizasa, para que se tornasse o 19º Soke da Ryu, o que ele recusou, por não querer deixar o Mestre Kano, seu protector (e sobretudo porque já estava prometido a uma jovem duma familia nobre dos lados de Shizuoka, com a qual se casará no início dos anos 30... quanto à Katori Shintō-ryū, a sua descendência será finalmente assegurada em 1929 quando o Sensei Kinjiro se casa com a descendente em questão, sendo então o seu filho o 20º Soke. Entretanto, o Mestre Otake encarregar-se-à da direcção do ensino). Tudo isto para explicar as notáveis diferenças entre as técnicas do Kenjutsu e do Iaijutsu ensinadas em nome da Katori Shintō-ryū pelo Mestre Mochizuki, Sugino, e muitos outros, e o próprio Otake...
Em 1929 Minoru apresenta a Katame No Kata com o Mestre Kano, frente a uma plateia de embaixadores estrangeiros, depois dirige um estágio de Judo no liceu de Chiba, quando fica de novo doente (problemas pulmonares). Desta vez é o Mestre Kano que suportará as despesas das consultas e do hospitais... Depois de curado, e sempre pela Kobudo Kenkukan (ou Kai), o Mestre Kano envia-o em 1930 para seguir os ensinamentos do Mestre Ueshiba em Takemusu Aiki e em Aikijujutsu, oferecendo-lhe os honorários pedidos ("astronómicos" dirá Minoru mais tarde). Vai também seguir os cursos do Mestre Kooji Shimizu da Shindo Muso Ryu Bo-jutsu, depois aqueles do Mestre Nakayama Hakudo em Iaijutsu na Muso Shinden Ryu. Tinha também que fazer, por cada curso seguido e semanalmente, um relatório onde detalhava as técnicas, descrevia a que lhe parecia mais eficaz e o que pensava dela; invariavelmente, o Mestre Kano, de seguida, dizia-lhe "é eficaz?... sim, guarda-a... não, deita-a fora". Em Junho de 1931 Minoru Mochizuki abre o Yoseikan Budo ("Yo" significa ensino, "Sei" significa verdade, "Kan" significa sítio ou local, tudo junto pode-se traduzir como "O sítio onde se ensina a verdade" neste caso a verdade do Budo), sendo o Mestre Ueshiba quem descobre o local em função das forças telúricas e cósmicas e de uma suposta fonte (donde a água jorrará em profusão). Mais tarde baptizará o seu estilo de Aikido Ju-jutsu, depois de o Mestre Ueshiba empregar o termo Aikido. Este também lhe ofereceu a filha em casamento e a sua sucessão, mas mais uma vez ele recusou (sabemos porquê). Será um outro aluno da época que casará com a menina, o futuro Mestre Tohei, agora nos E.U.A.
Em 1933, Minoru participa brilhantemente nos campionatos de Judo regionais, continua a receber os ensinamentos do Mestre Ueshiba de quem se torna assistente e de quem recebe directamente os Okuden Inka da Daito-Ryu Aiki-jutsu (a maior distinção, sob a forma de dois rolos de pergaminho com dois metros de comprimento contendo a descrição das técnicas secretas, mostrou-nos ele). Em 1935 ganha em combate o seu 5º Dan de Judo e o Mestre Ueshiba envia-o para ensinar a Polícia Militar e a Polícia Nacional. No ano seguinte é enviado com a sua familia para a china, como cooperante, onde será director do Liceu de Mongóis, na cidade de Paou-To, e sub-prefeito do departamento chinês Sei-Sui-Ga (o governo Japonês, como bom ocupante, reservava-se o direito de nomear os Prefeitos e Sub-Prefeitos). Na Mongólia aprende o Karate, com o filho de Kudara, o antigo Rei das ilhas Ryu Kyu (Okinawa) e especialista em Shuri-Te, e cria a Kata de Atemi Hapoken (o punho nas 8 direcções). Também fará Karate, no regresso, com o próprio Gichin Funakoshi, em Tóquio.
Frequenta as Artes Marciais locais mas acha o Tai Chi Chuan muito aborrecido e, nos combates (amigáveis?) com os especialistas chineses obtém sempre vitória, ensinando-lhes as Artes Marciais Japonesas.
Minoru Mochizuki ficará retido ainda algum tempo na China e na Mongólia, mesmo depois do fim da guerra, voltando ao Japão apenas em 1947, para reconstruir o Dojo Yoseikan, em Shizuoka, que fora arrasado com os bombardeamentos de 1944/ 1945 e retoma o ensino a partir do levantamento da proibição das artes marciais, juntando-lhes o Ate Waza do Karate Shotokan, primeiro, depois Wado Ryu. Nessa época recebe o seu 6º Dan de Judo, 8º Dan de Aikido, e o 4º Dan de Karate.
No Verão de 1951 é enviado à Europa pelo Governo Japonês, para renovar as ligações entre Universidades Europeias e Japonesas, sendo acompanhado de Hayakawa, 7º Dan do Kodokan (este para estudar o desenvolvimento do Judo fora do Japão). Toma assim contacto com os Budokas Franceses no Ju-jutsu Club de France, dirigido pelo Mestre Kawaishi e faz demonstrações sobre demonstrações. O acolhimento é entusiástico e mostra um Judo diferente do Mestre Kawaishi (o Judo Kodokan), esse Judo, mesmo sem empregar a mesma classificação nem os mesmos nomes que o Mestre Kawaishi, não desencadeia da parte dos Clubes Nacionais Franceses qualquer reacção específica na altura. Aliás, Mochizuki dizia querer ficar algum tempo, tendo-lhe sido oferecido pela Federação Francesa de Judo o título de Assistente do director Técnico.
Mas depressa um diferendo oporá Kawaishi a Mochizuki, o primeiro intimando o segundo a praticar o "seu" Judo e o "seu" método, ou de se isolar no ensino de outras Artes Marciais Japonesas... O que Mochizuki fará de um modo geral no Ju-jutsu Club de França (e bastante menos nos outros Clubes!). Também não oficialmente Mochizuki toma conhecimento do Boxe Inglês, Francês, da luta e da esgrima com florete
Ao que parece, Mochizuki e o seu amigo Osawa fazem campanha nos meios sensíveis contra a bomba atómica francesa e por razões de alta política, aquele recebe a oferta de um bilhete de volta no primeiro avião com partida para o Japão. De volta ao Japão Mochizuki retoma o ensino no Yoseikan e em 1956 recebe o 5º Dan de Kendo, depois 5º Dan de Jodo. Em 1957 pede ao seu filho para fazer uma paragem em França, quando ele próprio recebe no seu Dojo os primeiros franceses tais como Galecier, Normand e um Tunisino Alcheik, nós faremos parte da segunda vaga...
Em 1959 é 7º Dan de Judo, em 1960 recebe a Medalha de Prata da cidade de Paris (sem rancor...) e em 1963 o seu filho volta a França onde se instala. Em 1971 volta para dirigir um estágio. Em 1973 dirige um estágio em Saigão. Em 1976 é elevado ao grau de 8º Dan Hanshi de Judo. Em 1978 a Kokusai Budo In nomeia-o 9º Dan de Nihon Ju-jutsu, e em 1979 recebe o 10º Dan de Aikido das mãos de um membro da família Imperial. Será também 7º Dan Hanshi de Iaijutsu e 8º Dan de Katori Shinto Ryu... tornando-se assim o Budoka com maior acumulação de Dan no mundo. Em 1948 o Mestre Mochizuki aceita a presidência de honra do nosso Ryu e nós honramo-lo sempre como tal.
Dos seus ensinamentos sublinhamos alguns "clássicos". Sobre o Desporto: deve poder praticar-se sem perigo pelo que é necessário eliminar todas as técnicas perigosas... Sobre o Bu-jutsu: a verdadeira eficácia consiste em matar o mais rápido possível... Estive em bastantes combates... Desembainhei o sabre e devastei o campo inimigo... Na sua origem o Bu-jutsu era governar e proteger o povo, era polir o espírito e afrontar a morte sem medo para poder destruir o inimigo... O Bu-jutsu não oferece qualquer alternativa, a vitória ou a derrota... Presentemente é preciso não deixar que o Bu-jutsu se transforme num instrumento de ambição e de poder. Sobre o Aiki: Aiki é pressentir a intenção do inimigo que quer atacar "Aiki No Jutsu"...
Mestre Philippe Renault
O Mestre Philippe Renault começou os seus estudos das Artes de Combate em 1947/ 1948 (com o Mestre Lamotte).
Em 1956 recebe o 1º Dan de Judo/ Ju-jutsu (com os Mestres De Herdt, Michigami e Awazu), ensinando ao mesmo tempo Boxe Francês e Judo.
Em 1958, recebe das mãos do Mestre Tadashi Abe o 1º Dan de Aikido, e do Mestre Tetsuji Murakami o 1º Dan de Karate Shotokai. No mesmo ano recebe ainda o Diploma de Estado de Professor de Artes Marciais.
Parte para Japão onde descobre, entre outras coisas, o Karate Wado Ryu. É apresentado ao Mestre Hironori Otsuka pela Princesa Chichibu e é recomendado pelo Sr. Dennery, consul da França em Tóquio, aos Mestres Kyuzo Mifune, Kenji Tomiki e Morihei Ueshiba.
De regresso a França funda a Nihon Bu-jutsu Ryu, onde é ensinado o Judo e o Ju-jutsu do Mestre Mikonosuke Kawaishi, o Karate do Mestre Otsuka e o Aikido do Mestre Tomiki. A estes ensinamentos serão acrescentados o Nihon Ju-jutsu (de novo reconhecido no Japão), as armas do Ji-Buguei (Ken, Tanto e Tambo) e o Kobujutsu (Bo, Tonfa, Sai, Nunchaku e Kama), com os Mestres Sano, Asai, Inoue, Kai, Uehara, Sasaki e Hiroo Mochizuki.
Em 1997, após um longo trabalho de pesquisa, vê reconhecido pela Federação Francesa de Karate, o Karate-jutsu Wadokan, que pretende manter o espírito e a técnica (Yoshin Shindo Ryu Ju-jutsu e Kenpo Karate-jutsu) do Mestre Hironori Otsuka.
O Diploma de 8º Dan de Nihon Ju-jutsu é-lhe entregue em Novembro de 2000 pelo Director Técnico da União Europeia de Ju-jutsu, Mestre Zerwenka Wenkstette, 9º Dan.
Mestre Fernando Batista
1976 - Inicia a prática das Artes Marciais pelos desportos de combate com o Mestre de Judo Carlos de Oliveira (falecido), excepcional combatente e grande amigo. Seguindo-se o Boxe Inglês, cuja prática tem lugar durante 2 anos de serviço militar na Força de Fuzileiros. O Mestre Ferraz encarrega-se de lhe transmitir as bases da "Nobre Arte".
1980 - Começa a treinar Judo/ Ju-jutsu com o professor Luís Fernando e descobre a componente marcial que o irá influenciar até aos nossos dias.
1987 - Recebe das mãos do Mestre Dário Dossio o 2º Dan de Nihon Tai-jutsu.
Durante um estágio em Bordéus, com o Mestre de Nihon Tai-jutsu Roland Hernaez (8º Dan), conhece o Dr. Philippe Renault. Influênciado pela sua técnica e carácter, pede ao Mestre que o aceite como aluno.
A partir de 1988 torna-se aluno do Mestre Philippe Renault e começa uma "cruzada" para transmitir em Portugal, o Bujutsu Japonês, sob a superior orientação técnica e pedagógica, do Sensei Philippe Renault - Nihon Bujutsu Seibukan.